
Prepare o café e acomode-se na poltrona, porque hoje vamos viajar para uma época em que assistir tv antiga anos 80, era uma modalidade de esporte radical e um verdadeiro teste de paciência.
Se você nasceu na era do Wi-Fi e do 4K, talvez ache que estou inventando histórias, mas quem viveu os anos 70 80 sabe do desafio que era ligar aquela TV antiga preto e branco. Pelo menos na minha casa.
O Ritual do Aquecimento
Diferente de hoje, onde você aperta um botão e a imagem brota instantaneamente, as TV antiga preto e branco — aquelas de “tubo”, pesadas como um saco de cimento — tinham personalidade própria.
Elas precisavam “acordar”. Você ligava o botão e… nada. Passavam-se dez, vinte, trinta segundos de tela preta enquanto as válvulas internas esquentavam.
De repente, um ponto de luz surgia no meio da tela e ia se abrindo até preencher a tela toda.. Era como se a TV estivesse bocejando antes de começar a trabalhar.
O lendário Girardi.

Naquela época, a energia elétrica nas casas era mais instável quanto a economia do Brasil.. Bastava alguém ligar o chuveiro ou o ferro de passar para a imagem da TV “encolhia”.
As bordas pretas iam fechando e a imagem ficava pequena no meio da tela.
A solução? O lendário Girardi. Ele era uma caixinha de ferro pesada que ficava em cima ou do lado da TV, ele tinha uma chave seletora que você girava e fazia um barulho de “clac-clac”.
Quando a imagem murchava, você corria lá e aumentava a voltagem no botão. Era uma engenharia caseira: se aumentasse demais, corria o risco de queimar a tv; se deixasse baixo, não via o rosto do apresentador. Então esse aparelho mantia o equilíbrio da energia que a tv necessitava.
O Mistério do “Ponto Solitário” e o Traço Fujão
Quem nunca tomou um susto quando a imagem sumia de repente e sobrava apenas um pontinho branco brilhante bem no centro da tela?
O diagnóstico em casa era imediato: “Alá! Queimou a válvula!”. Lá ia o meu irmão, não sei a onde que ele arrumava as válvulas que ele trocava.
Outra coisa que sempre acontecia era a imagem “rolando”. Do nada, a novela começava a subir ou descer sem parar, como se estivesse em uma esteira ergométrica infinita.
Um traço preto cortava a tela e a imagem ia junto. O remédio era ir atrás do aparelho e girar um pininho minúsculo chamado “sincronismo vertical”.
Era preciso ter dedos de cirurgião para girar aquilo até a imagem parar de correr. Às vezes para manter a precisão, era necessário segurar a respiração, se não ela voltava a rolar!
O Fantasma e o “Homem-Antena”

Mas nada supera o terrível “fantasma”. Sabe quando o herói do filme aparecia com uma sombra transparente do lado dele, como se tivesse um sósia invisível?
Isso acontecia por que de que o sinal da antena estava batendo em algum prédio e chegando atrasado na sua casa.
Para resolver, entrava em cena o Homem-Antena. Geralmente era eu que subia no telhado enquanto o resto da casa ficava na sala gritando:
— “Pode Vira!”
— “Tá bom agora?”
— “Não! Piorou! Volta um pouquinho!”
— “E agora?”
— “PAROU! Fica aí! Não solta o cano!”
O mais engraçado (e irritante) era que, enquanto a pessoa segurava o mastro da antena, a imagem ficava perfeita. No momento em que ela soltava o ferro para descer do telhado, o fantasma voltava. Parecia que o corpo humano servia de extensão da antena.
O Perigo quando aumentei o mastro até o chão.
E aqui entra a parte do “esporte radical”. Como as TVs não tinham o isolamento de hoje, o chassi de metal muitas vezes passava corrente para o cabo da antena (aquele cabinho chato de fita, de 300 ohms, que parecia um macarrão talharim).
O mastro da antena geralmente era um cano de ferro enorme que ia do chão até o telhado para facilitar o giro.
Se você estivesse descalço, com o pé no chão úmido, e fosse “dar um jeitinho” na sintonia… ZAP! O choque era garantido.
Na primeira vez, tomei um baita susto, mas depois eu peguei as manha. O truque era usar o chinelo Havaianas como isolante e no dia de chuva rezar para que não caísse um raio bem na hora que posicionar a antena.
O Fim de uma Era. Ainda bem que foi para melhor.
Hoje, tudo é digital. Ou a imagem está perfeita em 4K, ou ela simplesmente não existe.
Não tem mais o meio-termo do chuvisco, não tem o charme do fantasma, e ninguém mais leva choque tentando sintonizar o Netflix.
Perdemos a interatividade de dar um “tapinha técnico” na lateral da TV para a imagem voltar ao normal, mas ganhamos em segurança e qualidade.
Mas, cá entre nós, que saudade dá aquela adrenalina de girar o mastro da antena e conseguir, finalmente, limpar a imagem para assistir ao filme de domingo!
Se você viveu isso, parabéns: você é um sobrevivente da era das válvulas!
Se não viveu, pergunte aos seus pais ou avós sobre o Girardi — eles certamente terão uma história de choque ou de “bombril na antena” para contar com um sorriso no rosto.
Gostou dessa viagem no tempo? Que tal me contar qual era o “truque” que você usava na sua casa para a TV funcionar? Eu adoraria saber se você também era o “ajustador oficial de antenas” da família!